segunda-feira, 23 de agosto de 2010

OS POETAS DE POEMAS MÍSTICOS DO ORIENTE

"A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro."


 Gibran Khalil Gibran

Nascido em 1883 em Bsharre, aldeia montanhosa no Norte do Líbano, Gibran Khalil Ginran tomou contato, na infância, com o pensamento dos filósofos da idade de ouro da cultura árabe e com o cristianismo, ao estudar num colégio de padres maronitas em Beirute. Mas aos 11 anos, migrou com a mãe e os irmãos para os Estados Unidos. Ainda adolescente, começou a desenvolver aptidão para a pintura e a literatura. Aprendeu rapidamente o Inglês e começou a escrever para jornais da comunidade sírio-libanesa radicada nos EUA.


Entre 1903 a 1904, Gibran perdeu a irmã Sultana, o irmão Boutros e a mãe, todos por enfermidades. A sucessão de tragédias familiares em um espaço tão pequeno de tempo marcaria profundamente sua personalidade. Mais do que nunca, Gibran atirou-se inteiramente ao trabalho artístico.


Em 1904, conseguiu realizar sua primeira exposição de pinturas e desenhos em Boston e conheceu Mary Haskell, diretora e proprietária de uma escola local, que passou a custear seus estudos de arte em Paris (1908 a 1910). Seu primeiro trabalho literário de importância foi publicado em 1906, um volume de contos: Ninfas dos Vales, redigido em árabe. O tema básico girava em torno de críticas ao papel da religião na sociedade e colocava-se contra as leis orientais. Friderich Nietzsche foi influência importante no pensamento de Khalil Gibran.

O mais célebre trabalho de Gibran, O Profeta (1923), é visto por muitos estudiosos como um paralelo proposital da obra de Nietzsche, Assim Falou Zaratustra. O Profeta tornou Gibran conhecido no mundo inteiro. Como em Zaratustra, O Profeta de Gibran procura dar um aspecto divino à condição humana, em vez de buscar a divindade no exterior do indivíduo.

Gibran morreu em Nova Iorque, em 1931, acreditando na missão mística da criação artística. “Através de meu trabalho, haverá algumas pessoas que poderão se libertar de todos os grilhões do passado. Aqueles capazes de suportar a vida de hoje são relativamente poucos, mas são os mais fortes. Se eu puder abrir o coração humano, não terei vivido em vão”.





Jalal al-Din Mohammad Ibn Mohammad Ibn Mohammad Ibn Husain Al Rumi

Um dos mais expressivos poetas sufis, nasceu em 1207, em Balkh (atual Afeganistão). Jalal al-Din Mohammed Ibn Mohammed ibn Hussain al-Balkhi Rumi era filho de um sábio religioso. Aos 25 anos, foi enviado para a cidade de Aleppo, para o ensino superior e, mais tarde, para Damasco. Continuou com sua educação até o 40 anos e, após a morte do pai, sucedeu-o como professor. Rumi tornou-se famoso por sua introspecção mística, seu conhecimento religioso e sua poesia.

Em 1244, Rumi encontrou Shams de Tabriz, que se tornou seu mestre espiritual. Shams de Tabriz tinha então 60 anos de idade e havia oferecido a Deus, segundo dizem, sua própria vida em troca do encontro com um de seus santos.


Shams e Rumi permaneceram juntos até 1247, quando Shams desapareceu. Há versões de que tenha sido assassinados por discípulos de Rumi, ciumentos da ascendência que ele exercia sobre seu mestre. Inconsolável, Rumi escreveu Poemas Místicos em homenagem a Shams. O livro é uma compilação de poemas de amor e de luto. Também em homenagem ao mestre, criou a dança cósmica, o sama, praticada pela ordem sufi Mevlevi. Morreu em 1273, em Konya, local que se tornou sagrado para os dançarinos dervixes.


Era um erudito professor de teologia, zeloso nos exercícios espirituais. Tudo mudou quando se encontrou com a figura misteriosa e fascinante do monge errante Shams de Tabriz. Como se diz na tradição sufi, foi "um encontro entre dois oceanos". Esse mestre misterioso iniciou Rumi na experiência mística do amor. Seu reconhecimento foi tão grande que lhe dedicou todo um livro com 3.230 versos o Divan de Shams de Tabriz. Divan significa coleção de poemas.


Tornou-se famoso por sua introspecção mística, seu conhecimento religioso e como um poeta, ensinava um número grande de pupilos em sua Madrasah e também fundou a famosa Ordem Maulvi em Tasawwuf. Morreu em 1273 em Konya, que subseqüentemente tornou-se um lugar sagrado para os dançarinos dervixes da Ordem Maulvi.


A efusão do amor em Rumi é tão avassaladora que abraça tudo, o universo, a natureza, as pessoas e principalmente Deus. No fundo trata-se do único movimento do amor que não conhece divisões, mas que enlaça todas as coisas numa unidade última e radical tão bem expressa no poema Eu sou Tu: "Tu, que conheces Jalal ud-Din (nome de Rumi). Tu, o Um em tudo, diz quem sou. Diz: eu sou Tu". “Ou o outro: De mim não resta senão um nome, tudo o resto é Ele".


Essa experiência de união amorosa foi tão inspiradora que fez Rumi produzir uma obra de 40.00 versos. Famosos são o Masnavi (poemas de cunho reflexivo-teológico), Rubai-yat (Canção de amor por Deus) e o já citado Divan de Tabriz.


Próprio da experiência místico-amorosa é a embriagues do amor que faz do místico um "louco de Deus" como eram São Francisco de Assis, Santa Tereza d’Ávila, Santa Xênia da Rússia e também Rumi. Num poema do Rubai’yat diz: "hoje eu não estou ébrio, sou os milhares de ébrios da terra. Eu estou louco e amo todos os loucos, hoje".


Como expressão desta loucura divina inventou a sama a dança extática. Trata-se de dançar girando em torno de si e ao redor de um eixo que representa o sol. Cada dervixe girante, assim se chamam os dançantes, se sente como um planeta girando ao redor do sol que é Deus.


Dificilmente na história da mística universal encontramos poemas de amor com tal imediatez, sensibilidade e paixão que aqueles escritos pelo islâmico Rumi. É como uma fuga de mil motivos que vão e vêm sem cessar. Num poema de Rubai-yat canta: "Tu, único sol, vem! Sem Ti as flores murcham, vem!. Sem Ti o mundo não é senão pó e cinza. Este banquete e esta alegria, sem Ti, são totalmente vazios, vem!".


Um dos mais belos poemas, por sua densidade amorosa, me parece ser este, tirado do Rubai’yat: "O teu amor veio até meu coração e partiu feliz. Depois retornou, vestiu a veste do amor, mas mais uma vez foi embora. Timidamente lhe supliquei que ficasse comigo ao menos por alguns dias. Ele se sentou junto a mim e se esqueceu de partir".


A mística desafia a razão analítica. Ela a ultrapassa porque expressa a dimensão do espírito, aquele momento em que o ser humano se descobre a si mesmo como parte de um Todo, como projeto infinito e mistério abissal inexprimível. Bem notava o filósofo e matemático Ludwig Wittgenstein na proposição VI de seu Tractatus logico-philosophicus:"O inexeprimível se mostra, é o místico". E termina na proposição VII com esta frase lapidar: "Sobre o que não podemos falar, devemos calar". É o que fazem os místicos. Guardam o nobre silêncio ou então cantam como fez Rumi, mas de um modo tal que a palavra nos conduz ao silêncio reverente.


Seu impacto na filosofia, literatura, misticismo e cultura, foi tão profundo que por toda a Ásia Central e países Islâmicos quase todos os sábios religiosos, místicos, filósofos, sociólogos e outros, refletiram sobre seus versos durante muitos séculos.



Omar Khayyam


Nasceu em Naishápúr (Nishapur), cidade do Nordeste da Pérsia (Irã), em 1048, e morreu em 1131. Durante sua vida, tornou-se famoso por seus conhecimentos de matemática e astronomia, especialmente por sua contribuição para a reforma do calendário Persa. Mas hoje o nome de Khayyam é lembrado por sua poesia.


No ocidente, ficou conhecido primeiramente nos países de língua Inglesa devido à tradução realizada por Edward Fitzgerald, em 1859, de sua obra principal, O Rubaiyat.


Rubaiyat é o plural da palavra persa ruba'i, que designa uma pequena composição em verso composta por duas linhas, cada uma delas com uma quebra, que transforma assim essas duas linhas em quatro versos. É uma forma poética original típica da literatura persa medieval. As Rubaiyat tornaram-se muito populares, mas também foram cultivadas por poetas eruditos e filósofos, como Omar Khayyam.


A filisofia de Omar Khayyām era bastante diferente dos dogmas oficiais. Concordou com a existência de Deus mas se opôs à noção de que cada acontecimento e fenômeno particular era o resultado de intervenção divina. Em vez disso ele apoiou a visão que leis da natureza explicam todos fenômenos particulares da vida observada.


• Pela ajuda de Deus e com a ajuda preciosa dele, digo eu que a Álgebra é uma arte científica. Os objetos com que ela transaciona são números absolutos e quantidades mensuráveis que, entretanto eles sendo desconhecidos, são relacionados a "coisas" que são conhecidas, sendo que a determinação das quantidades desconhecidas é possível. Tal coisa ou é uma quantidade ou uma relação sem igual que só é determinada através de exame cuidadoso. Nas procuras da arte algébrica estão as relações das quais conduzem o conhecido ao desconhecido, descobrir que é o objeto de Álgebra como declarado acima. A perfeição desta arte consiste em conhecimento do método científico por qual determina os desconhecidos numéricos e geométricos.


- Tratado de Demonstração de Problemas de Álgebra" (1070)


• "Eu minha alma enviei para o espaço sem fim para um traço aprender nos destinos do além, minha alma devagar foi retornando a mim e me disse: eu sou o céu e o inferno também".


- Rubaiyat


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Poesias



...Ide para os vossos campos e jardins e aprendereis que o prazer da abelha consiste em retirar o mel da flor. Mas também a flor tem prazer em dar o seu mel à abelha. Pois para a abelha a flor é uma fonte de vida. E para a flor a abelha é mensageira de amor. E, para ambas, abelha e flor, o dar e o receber de prazer é uma necessidade e um êxtase.


Khalil Gibran


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Vem,



Te direi em segredo



Aonde leva esta dança.



Vê como as partículas do ar



E os grãos de areia do deserto



Giram desnorteados.



Cada átomo



Feliz ou miserável,



Gira apaixonado



Em torno do sol.



                                                            Jalaluddin Rumi


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Noite, silêncio, folhas imóveis;


imóvel o meu pensamento.


Onde estás, tu que me ofereceste a taça?


Hoje caiu a primeira pétala.


Eu sei, uma rosa não murcha


perto de quem tu agora sacias a sede;


mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,


e que te fez desfalecer.


Acorda... e olha como o sol em seu regresso


vai apagando as estrelas do campo da noite;


do mesmo modo ele vai desvanecer


as grandes luzes da soberba torre do Sultão.


Omar Khayyam


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Desejo a todas uma ótima semana.
 
A Deusa que habita em mim acolhe a Deusa que habita em Ti.
Nefer El Amar

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